I.A. no atendimento jurídico: 4 situações em que o agente para
Cliente que já tem advogado, suspeita de golpe, pedido de cálculo: quando o agente de I.A. do escritório deve parar e chamar uma pessoa da equipe.
· 8 min de leitura
Todo agente de I.A. que atende pelo escritório precisa de uma lista curta de situações em que ele para de conversar e chama uma pessoa. As que eu coloco em qualquer agente são quatro: cliente que diz já ter advogado, suspeita de golpe usando o nome do escritório ou do advogado, pedido de cálculo e caso delicado. A instrução é sempre a mesma: descrever a situação no roteiro e, quando ela acontecer, desativar a I.A. naquela conversa e avisar alguém da equipe na hora. Não dá para prever cada mensagem que vai chegar. Dá para decidir antes em que momento a máquina sai da conversa.
Por que não dá para prever tudo
É o que eu digo no vídeo do topo desta página. Inteligência artificial não é chatbot. O chatbot manda a mensagem que você escreveu; a I.A. gera a resposta a partir do que está configurado. Não tem como controlar cada detalhe do que ela vai dizer, e situações que o roteiro não previu vão aparecer.
Uma I.A. é livre. Se você deixar um agente em branco e conversar com ele, ele conversa sobre qualquer assunto. Por isso eu uso uma divisão simples: o que você não quer que ela faça, você proíbe numa regra; o que você quer que ela faça, você coloca no roteiro. O que não está escrito em lugar nenhum, ela decide sozinha.
E proibir é só metade do trabalho. “Não pode fazer isso.” Certo, mas e se acontecer? A regra completa diz o que não fazer e o que fazer quando a situação aparecer. Nas situações de risco, a segunda parte é quase sempre a mesma: parar e chamar uma pessoa. Nem precisa continuar a conversa. Isso vale também para quem usa regras gerais mais flexíveis, que deixam o agente conversar mais com o cliente.
Cliente que já tem advogado
A regra: se o cliente disser que já tem advogado, o agente encerra o atendimento e avisa a equipe. Ele não oferece contrato, não promete seguir com o caso e não comenta o trabalho do outro profissional.
O motivo está no Código de Ética e Disciplina da OAB. O art. 14 diz que o advogado “não deve aceitar procuração de quem já tenha patrono constituído, sem prévio conhecimento deste, salvo por motivo plenamente justificável ou para adoção de medidas judiciais urgentes e inadiáveis”. O atendimento comercial termina num contrato e numa procuração. Saber se o outro advogado cuida do mesmo caso, se a pessoa quer trocar de profissional ou se existe uma exceção é avaliação para o advogado do escritório, não para o agente.
Às vezes a pessoa tem advogado em outro assunto e procurou o escritório por um caso novo. Quem esclarece isso é a pessoa que assume a conversa. Se estiver tudo certo, ela mesma retoma o atendimento da I.A.
Suspeita de golpe
Os casos de golpe do falso advogado têm se multiplicado pelo país. Segundo a OAB Nacional, que lançou uma campanha sobre o tema em abril de 2025, os golpistas abordam as vítimas por aplicativos de mensagens, usando indevidamente nomes, fotos e até informações extraídas de processos judiciais, e tentam convencê-las a pagar via PIX com a justificativa de liberar valores judiciais.
Para o atendimento do escritório, isso tem uma consequência direta. Cedo ou tarde, um cliente vai encaminhar para o WhatsApp do escritório uma mensagem que recebeu de outro número, um documento que parece uma decisão ou um pedido de depósito, e perguntar se é verdade. Essa confirmação não é trabalho do agente. Quem verifica o processo e responde é uma pessoa do escritório.
A regra tem duas partes. Nas regras gerais: nunca confirmar nem negar a autenticidade de documento, mensagem, valor ou pedido de pagamento enviado por terceiros. No roteiro: se o cliente falar de mensagem de outro número em nome do escritório ou do advogado, pedido de depósito ou PIX para liberar valores, alvará, sentença ou qualquer situação parecida, desativar a I.A. e notificar a equipe.
Se o escritório quiser que o cliente receba uma resposta antes de a pessoa assumir, deixe essa mensagem pronta no roteiro, com as suas palavras, sem nenhuma opinião sobre o documento. Algo como: “Recebi. Uma pessoa da nossa equipe vai verificar e falar com você por aqui. Até lá, não faça nenhum pagamento.” A orientação da OAB para o cidadão vai na mesma linha: confirmar a identidade do advogado pelos contatos já conhecidos ou informados no contrato, evitar pagamento pedido por mensagem ou ligação sem checagem, desconfiar de pedido urgente de PIX para liberar valores e guardar os prints para o boletim de ocorrência.
Pedido de cálculo
“Quanto eu vou receber?” é uma das perguntas mais comuns no primeiro atendimento. A I.A. consegue fazer conta, e esse é justamente o risco: um número mandado no WhatsApp vira expectativa, e o cálculo de verdade depende dos documentos e da análise do advogado.
Aqui a regra é uma proibição direta. Se você não quer que a I.A. faça cálculo de rescisão, escreva nas regras gerais: é proibido fazer cálculo de rescisão. E complete com a segunda metade: se o cliente pedir um valor, o agente responde que o cálculo é feito pelo advogado depois da análise dos documentos e segue o atendimento. No modelo que eu uso, o agente não tira dúvida jurídica. Ele conduz o atendimento até o contrato, e a análise do caso fica com o advogado, como eu explico no artigo sobre não transformar a I.A. em advogado. Se o cliente insistir, ou se o seu escritório preferir, o pedido de cálculo também pode chamar uma pessoa.
Caso delicado
A quarta situação é a mais aberta, e cada escritório define a sua lista. Alguns exemplos: alguém relatando violência ou ameaça, uma prisão, um prazo que vence em poucos dias, uma pessoa muito abalada com o que está vivendo, um cliente do escritório reclamando do andamento do processo. São conversas em que o roteiro comercial não serve e em que a resposta depende de alguém com autoridade para decidir.
Vale aqui o jeito que eu recomendo para escrever todas essas regras: por contexto, não por palavra. O cliente não escreve “golpe”. Ele escreve “recebi uma mensagem do doutor pedindo um PIX”. Por isso a instrução descreve a situação e termina com algo como “se acontecer isso, ou uma situação parecida com essa, desative a I.A. e notifique o advogado”.
Como configurar na Guimoo
Uma pergunta que aparece nas sessões de suporte é se vale criar um agente só para essas situações ou ajustar apenas a recepção. A minha resposta: eu colocaria em todos os agentes, nas regras e no roteiro. Nas regras, porque é lá que ficam as proibições. No roteiro, porque é no roteiro que você manda o agente se desativar.
- Cadastre a notificação. Ela reúne os números de quem deve receber o aviso, e a conexão de envio define por qual WhatsApp ele sai. Defina quem responde cada tipo de situação: no caso de golpe, alguém que consiga verificar o processo.
- Escreva as proibições nas regras gerais. Não confirmar documentos nem pagamentos, não fazer cálculo, não oferecer contrato a quem já tem advogado.
- Descreva cada situação no roteiro, pelo contexto, terminando com “ou uma situação parecida com essa”.
- Insira as ações na mesma instrução. No roteiro da Guimoo, você digita @ e escolhe a ação. “Notificar equipe” manda um aviso no WhatsApp para as pessoas cadastradas naquela notificação, com o nome, o telefone e, se você quiser, um resumo da conversa. O cliente não vê nada. “Desativar agente” encerra o atendimento da I.A. naquela conversa. Se quiser encontrar essas conversas depois, acrescente uma etiqueta.
- Repita em todos os agentes. Recepção e especialistas: a situação pode aparecer em qualquer etapa.
- Teste de outro número. Mande uma mensagem simulando cada situação e confira se o agente parou e se o aviso chegou.
Depois que a I.A. para
Quem recebe o aviso abre a conversa e assume. Depois de desativada pelo roteiro, a I.A. não responde mais naquela conversa até alguém da equipe retomar o atendimento pelo painel da conversa.
Um detalhe que costuma confundir: ser o responsável pela conversa é uma coisa, e o estado da I.A. é outra. Se você só coloca a conversa no seu nome, a I.A. continua ativa. Para ela parar, é preciso desativar. Quando alguém da equipe escreve na conversa, o agente da Guimoo também pausa.
Nas primeiras semanas, confira na leitura diária das conversas se o agente parou onde devia. Isso faz parte da rotina de acompanhar o que a I.A. atende.
Por que isso é responsabilidade do escritório
O Provimento 205/2021 da OAB permite o uso de chatbot para facilitar a comunicação, desde que ele não afaste “a pessoalidade da prestação do serviço jurídico” nem suprima “a imagem, o poder decisório e as responsabilidades do profissional” (Anexo Único, item “Chatbot”). As quatro situações deste artigo são justamente as que pedem a decisão de um profissional. A regra de segurança é o que leva essas conversas até quem decide.
Por onde começar esta semana
- Escreva a lista das situações em que o agente do seu escritório deve parar. Comece pelas quatro deste artigo.
- Decida quem recebe cada aviso e cadastre a notificação.
- Coloque as proibições nas regras gerais e as instruções com @ no roteiro de cada agente. Teste de outro número.
- Confira nas conversas reais se o agente parou quando devia e se alguém da equipe assumiu.
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Perguntas frequentes
O agente de I.A. pode continuar o atendimento de quem já tem advogado?
Não deveria seguir com oferta nem contrato. O Código de Ética e Disciplina da OAB diz que o advogado não deve aceitar procuração de quem já tenha patrono constituído sem prévio conhecimento deste, salvo exceções (art. 14). Saber se é o mesmo caso ou se cabe exceção é avaliação do advogado: o agente encerra o atendimento e avisa a equipe.
O que a I.A. do escritório deve fazer quando o cliente pergunta se uma mensagem é golpe?
Não confirmar nem negar nada sobre o documento, o valor ou o pedido de pagamento. O agente se desativa naquela conversa e avisa uma pessoa da equipe, que verifica o processo e responde. A OAB orienta o cidadão a confirmar a identidade do advogado pelos contatos já conhecidos e a evitar pagamento pedido por mensagem sem checagem.
Como fazer o agente de I.A. da Guimoo parar e chamar alguém da equipe?
No roteiro, descreva a situação e, na mesma instrução, digite @ e insira as ações Notificar equipe e Desativar agente. A notificação avisa no WhatsApp as pessoas cadastradas, sem o cliente ver, e a I.A. para de responder naquela conversa até alguém da equipe retomar.
O agente de I.A. pode calcular quanto o cliente vai receber?
No modelo que eu uso, não. Um número enviado no WhatsApp vira expectativa, e o cálculo depende dos documentos e da análise do advogado. A regra proíbe o cálculo e diz o que responder: que o valor é calculado pelo advogado depois da análise dos documentos.

Quem escreveu
Guilherme CaetanoFundador da Guimoo
Guilherme Caetano é fundador da Guimoo, plataforma de I.A., CRM e automação de WhatsApp usada por mais de 1.000 contas ativas. Também participa da gestão do escritório Sales Caetano Advogados, com atendimento nacional nas áreas trabalhista, previdenciária, bancária e do consumidor, e cursa Direito em Goiânia.
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